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  Pronunciamentos

5/11/2009
Homenagem a Carlos Marighella

 

Senhor Presidente,
Senhores Senadores,
Senhoras Senadoras,

De vez em quando a história produz seres extraordinários. O autor do poema abaixo, sem sombra de dúvidas, foi um destes. Sua biografia se confunde com a luta pelo socialismo, pela liberdade e em defesa da vida.

“É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
Há os que têm vocação para escravo,
mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão.
Não ficar de joelhos,
que não é racional renunciar a ser livre...”

São trechos do poema “Rondó da Liberdade” de Carlos Marighella. Esse poeta lutador que há exatos 40 anos tombou na luta contra a ditadura militar.

Nascido em Salvador, na Bahia, filho de pai italiano e mãe negra, sua luta começa cedo. Aos 18 anos tornou-se militante do Partido Comunista Brasileiro. Aos 21 vai, pela primeira vez, para a cadeia. Motivo: um poema contendo críticas ao interventor local. Desde então sua vida é marcada pela perseguição das elites que dominam até hoje nosso país. Em 1º de maio de 1936 Marighella é preso novamente. Durante o ano em que ficou detido, enfrentou por quase um mês as terríveis torturas impostas por ninguém menos que Filinto Muller, que entre outras atrocidades foi o responsável, junto com Vargas, pela deportação de Olga Benário para a morte nas mãos assassinas do Hitlerismo.

Em 1939 vai novamente para o cárcere. Dessa vez fica preso por 6 anos. Transferido para os presídios de Fernando de Noronha e Ilha Grande, Marighella resiste novamente à tortura. Sua bravura é registrada pelo médico Nilo Rodrigues, que em depoimento à CPI que investigou os crimes do Estado Novo, afirmou que nunca vira tamanha resistência a maus tratos nem tamanha bravura. Durante o período em que esteve preso se dedicou à formação política dos demais presos, forma de manter viva a luta pela liberdade.

Anistiado em 1945 Marighella é eleito Deputado Federal Constituinte pela Bahia. Durante os 2 anos em que foi parlamentar proferiu mais de 200 discursos, todos em defesa do povo e contra a tirania imperialista que se apoderava do país. Com a cassação imposta por Eurico Gaspar Dutra, volta para a clandestinidade aonde permaneceu até sua morte em 1969, pois o advento da ditadura militar em 1964 só piorou sua situação. Foi, por muito tempo, considerado o “inimigo público número um” pelos militares. Em 1964 foi emboscado num cinema por agentes da ditadura. Resiste à prisão, é baleado, mas sobrevive. Fica 80 dias presos e em razão de uma forte pressão popular é solto novamente.

Em 1966, por discordar do processo de adaptação e burocratização que vivia o Partido Comunista, pede desligamento do mesmo e funda a ALN – Aliança Libertadora Nacional, que entre outras coisas defendia a luta armada contra a ditadura. Com o endurecimento do regime militar Marighella passa a ser caçado implacavelmente. Em 4 de novembro de 1969, em mais uma emboscada patrocinada pelo DOPS, então chefiado pelo delegado Fleury, Marighella tomba.

Seu sangue de negro italiano mancha de rubro a Alameda Casa Branca em São Paulo. Os militares acreditavam que assim eliminavam seu sonho. Nada mais distante da realidade. Há 40 anos sua força e sua luz servem de inspiração a todos aqueles que não se calam diante da iniqüidade imposta pelo capital.

Marighella foi também uma referência teórica para os comunistas. Ele, nas palavras de Florestan Fernandes “alargou a teoria, para que nela coubessem as crueldades sofridas pelos de baixo; e estendeu a prática, incluindo nela coerência e firmeza”.

Neste momento, em que homenageamos Marighella, somo-me àqueles que pranteiam sua morte. Mas somo-me também àqueles que reverenciam sua vida, sua trajetória e sua luta. Dez anos depois de assassinado, seus restos mortais finalmente puderam ser transladados até sua terra natal. Para recepcioná-lo seu grande amigo e parceiro de lutas Jorge Amado escreveu:

“Atravessaste a interminável noite da mentira e do medo, da desrazão e da infâmia, e desembarcas na aurora da Bahia, trazido por mãos de amor e de amizade. Aqui estás e todos te reconhecem como foste e serás para sempre: incorruptível brasileiro, um moço baiano de riso jovial e coração ardente. Aqui estás entre teus amigos e entre os que são tua carne e teu sangue. Vieram te receber e conversar contigo, ouvir tua voz e sentir teu coração.”

Marighella não é uma unanimidade. O simples pronunciar de seu nome ainda causa tremores em alguns. Nada mais natural pois Marighella nunca quis ser uma unanimidade. Quis sim ser reconhecido pelos seus pares, pelo seu povo, por aqueles que lutam incansavelmente pela liberdade. Ironicamente a rua onde tombou faz referência a tudo àquilo contra o que lutou: a Alameda Casa Branca nos remete ao centro do poder imperialista. Justo seria que nós, brasileiros e defensores da liberdade, emprestássemos seu nome a esta alameda para homenagear esse brasileiro insubstituível: Viva Carlos Marighella.

Senado Federal, 5 de novembro de 2009.


Senador José Nery Azevedo
Líder do PSOL



 
 
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