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O sepultamento de Neuton Miranda, presidente regional do Partido Comunista do Brasil (PC do B) e titular da Superintendência do Patrimônio da União (SPU) no Estado, mobilizou entidades de classe, associações comunitárias, partidos socialistas e líderes políticos do Pará. Já passava de 13 horas quando o enterro foi realizado, no cemitério Recanto da Saudade, em Ananindeua, mas as homenagens começaram bem antes.
Logo no início da manhã, centenas de pessoas ocuparam a rua Aveiro, em frente à Assembleia Legislativa, onde o corpo estava sendo velado desde o último domingo, para se despedir do comunista paraense. Militantes do PC do B exibiam a camisa ou a bandeira do partido ao qual Neuton pertenceu por 37 anos. Por causa da quantidade de pessoas, o trânsito no local teve que ser interditado.
Um trio elétrico foi posicionado na rua para que os mais próximos pudessem dar os seus depoimentos sobre o militante. A jornada de discursos, que começou às 9 horas, terminou quase meio-dia, quando o caixão com o corpo de Neuton saiu da Assembleia e foi levado até o cemitério, em cortejo que contou com dezenas de carros e seis ônibus.
O presidente da Assembleia Legislativa, Domingos Juvenil (PMDB), suspendeu a sessão deliberativa para que os demais parlamentares pudessem se despedir do ex-deputado. Airton Faleiro, líder do governo na Casa, um dos políticos a se pronunciar, observou que todos os 41 deputados estaduais compareceram ao velório de Neuton. 'Porque respeitam a história dele. Ele foi e é um vencedor. Primeiro que um comunista que morre de morte natural já é uma grande vitória, porque ele nunca baixou a cabeça para a ditadura', disse.
O ex-prefeito de Belém Edmilson Rodrigues, que, quando estava à frente do município teve Neuton Miranda como seu secretário de Habitação, também destacou o militante como um grande exemplo de resistência à ditadura. 'A perda, para mim, é uma coisa pessoal. Ele dedicou sua vida toda à luta pela justiça social', frisou.
Vários representantes de órgãos, partidos ou entidades deram os seus depoimentos. Cláudio Puty, chefe da Casa Civil, falou em nome da governadora Ana Júlia Carepa. O ex-prefeito de Marabá Tião Miranda, irmão do militante, se pronunciou em nome da família. 'O maior legado do Neuton, como irmão e como amigo, é que ele sempre viveu uma vida digna. Nunca se envolveu em nada que denegrisse a sua imagem', afirmou.
José Reinaldo, dirigente do PC do B, falou em nome da executiva nacional. 'O nosso partido se sente profundamente atingido com a morte do camarada, mas vamos recolher o seu exemplo para continuar ajudando a fazer as mudanças que esse País precisa', disse.
Filha e esposa do político dão depoimentos
Às 11h50 o corpo de Neuton Miranda saiu da Assembleia Legislativa em direção ao cemitério Recanto da Saudade, em Ananindeua. Na capela do cemitério, a filha do comunista, Janaína Miranda, que mora em Londres, bastante emocionada, lembrou dos últimos momentos vividos ao lado do pai, há duas semanas, quando ela veio a Belém resolver detalhes do seu casamento, previsto para acontecer em setembro. 'Eu fico muito triste, porque ele não estará na cerimônia. Mas fico feliz por ele ter visto o vestido de noiva', disse. 'Ele sempre foi um pai muito dedicado. Me ensinou a escrever meu nome, antes de eu entrar na escola. Foi ele também que me ensinou a ver as horas. Mas ele também foi um amigo, daqueles que eu podia conversar sobre coisas que nem sempre um adolescente fala com o pai', prosseguiu.
A esposa de Neuton, Leila Mourão, que conviveu com ele por 41 anos, afirmou que, de todas as tarefas que o marido já lhe deu, a mais árdua foi a da despedida. 'Neuton, eu vou sentir muitas saudades pelo resto da minha vida. Mas você foi um excelente companheiro', enfatizou.
Música durante cerimônia causa comoção
Por volta das 13h20, o corpo do militante foi sepultado. No caixão estavam as bandeiras do PC do B e da União Nacional dos Estudantes. Várias pessoas que acompanhavam o enterro não conseguiram segurar as lágrimas. Mais de 40 coroas de flores foram deixadas no local. Uma das pessoas presentes iniciou um Pai Nosso, única oração feita durante os três dias que compreenderam o velório e o enterro. Ao final da despedida, Alexandra Reschke, que era chefe do político em Brasília, cantou uma música escrita por Gonzaguinha - trocando a letra para poder incluir o nome de Neuton no refrão - e conseguiu arrancar aplausos dos que participavam da cerimônia.
Neuton Miranda faleceu na noite do último sábado, no município de Belterra, oeste paraense, vítima de infarto. Ele estava na cidade a trabalho, distribuindo títulos de terra às famílias. Neuton já foi presidente da Companhia de Habitação do Estado (Cohab) e secretário municipal de habitação. Atualmente, estava à frente da Superintendência do Patrimônio da União no Estado. |